O cavalo e o cemitério

02/06/22 às 08h45 - por Gisele Wommer



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Dizem que aconteceu lá pelas bandas de Caçapava, no início de 1900. Em cem anos as coisas mudam um bocado, naquela época o transporte era feito a cavalo ou carro de boi. E por lá morava João, que estava na flor da idade. As ideias de casamento lhe passavam pela cabeça com certa frequência, era trabalhador e tinha algumas economias, podia erguer um rancho, a subsistência viria do próprio trabalho através da cria de bichos e das plantações, ele podia casar a hora que bem entendesse, mas tinha um problema: como morava no interior e passava o dia na lida, pouco via moças.

Certo dia foi até um bolicho que ficava a cerca de uma hora a cavalo de sua casa. A mãe queria laranja azeda para fazer um doce, naquele ano sua colheita se apoucou, mas alguém disse que na venda encontraria. No fim o jovem encontrou mais do que isso, levou para casa muitas laranjas e o sorriso de Joaquina, a filha do bolicheiro.

E as idas de João ao bolicho se tornaram mais frequentes, quase necessárias. Sa-bia que a sua pretendente tinha mais idade do que ele e não entendia porque ainda es-tava solteira. Ao ver o moço limpando os arreios e lustrando as botas para mais uma in-cursão sem motivos pelas coxilhas pedregosas, a mãe fez um aviso:
— É Joaquina que tu queres meu filho? Sabes que ela já foi noiva?

E então a mãe lhe disse que um moço veio de muito longe para se casar com ela, mas acabou morrendo de forma trágica antes de chegar na casa da família. Ele foi sepul-tado bem ali no cemitério, aquele que ficava nas proximidades do bolicho. A mãe termi-nou a história dizendo que muitos rapazes tinham interesse na moça, mas o noivo morto tinha colocado todos a correr e avisou o filho que jamais voltasse para casa de noite.

Corações de jovens apaixonados e conselhos de mães são duas coisas que não combinam. Naquele dia o bolicheiro tinha lhe convidado para jantar, a esposa faria uma galinhada, além disso tinha lhe dado autorização para namorar a filha. João achou que na ocasião tratariam da data do casório e parecia que o pai tinha pressa em casá-la.

E a noite foi tranquila, perfeita. Empanturrou-se da galinhada da futura sogra, afo-gou-se na canha do futuro sogro e antes de ir embora ainda conseguiu dar o primeiro beijo em sua amada. Montou o cavalo bem encilhado que aguardava pacientemente pa-lanqueado do lado de fora da casa. Conduziu o pingo pelo breu da noite, guiado pela fraca luz da lua, mas aquilo não era problema, pois o bicho já sabia o caminho de cor.

Daquela vez mostrou-se impaciente, não queria obedecer ao dono, dava meia vol-ta cada vez que se aproximava do cemitério. João não entendeu, o animal era bem do-mado, ele mesmo havia cuidado disso, mas naquela noite de outono a cerração começa-va a se formar nos pagos e as cruzes de madeira do cemitério, que mal ele podia ver na penumbra, foram lhe parecendo assustadoras. Lembrou-se da história da mãe e um pa-lavrão lhe escapou pelos lábios. Conduziu o pingo até onde conseguiu, até o bicho em-pacar de vez, depois apeou e puxou pelas rédeas.

O animal caminhava a contragosto atrás de João. Este por sua vez tinha um cala-frio na espinha a cada passo mais perto do cemitério. Ele jurou ver um vulto de preto pa-rado bem na porteira, fez o sinal da cruz e seguiu andando, forcejando com o pingo que relutava cada vez mais. Lembrou da cachaça de alambique do sogro, e começou a culpar a bebida pelos seus devaneios. Logo que passou a porteira jurava que alguém dizia o seu nome. Fingiu que era outro João que a alma penada falava, essa hora, já convenci-do de que havia algo de sobrenatural ali.

Foi então que o pingo começou a andar mais devagar, o passo pesado fazia baru-lho na grama cada vez que as ferraduras tocavam o solo. João reconheceu aquele pas-so, era assim que o bicho andava quando alguém estava montado. Quando olhou para trás viu a silhueta de um homem em cima de seu cavalo.
— A moça é comprometida! — disse a voz.

E João não ficou ali para esperar o final, largou as rédeas e saiu correndo em dis-parada, seguido do cavalo que passou por ele logo adiante e sumiu relinchando e coice-ando na escuridão da noite.

Em algum momento o pingo chegou em casa. A mãe assustada saiu e ficou espe-rando por João junto do cavalo que seguia inquieto.
— Mamãe, eu preciso só de um favor. Vá até a venda amanhã e diga que o noiva-do se acabou, já não tenho pressa em me casar.

Curiosidade: Histórias de cavalos empacados perto de cemitérios são narradas no Sul de geração em geração. O cenário perfeito para ouvi-las é em um galpão, na beira de um fogo de chão.

“A assombração sabe para quem aparece”. Provérbio português.

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